segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Maria do Forno

Permitam que vos fale de uma mulher especial: a minha avó!

Creio que posso afirmar que minha avó deixou a sua marca neste mundo!
O mundo é muito grande mas… o seu mundo era muito maior do que aquele que conheceu.
O seu nome era Maria dos Anjos Pedro mas todos a conheciam por Maria do Forno.
Nasceu em 1906.
Era filha única, coisa rara naquele tempo.
A ciência e a distância dos grandes centros, não permitiram respostas às dificuldades que a sua mãe tinha para manter a gravidez até ao fim ou combater a mortalidade infantil. Um dos irmaos ainda conseguiu chegar à adolescencia mas Maria foi a única que conseguiu passar por esse difícil crivo e chegar à idade adulta.
Sabia ler e escrever! Foi o pai que a ensinou!
 “Para que é preciso uma rapariga saber ler?” perguntava a maioria.
Na altura, poucos (ou nenhuns) rapazes iam à escola, aprendendo com os mais velhos o essencial da leitura e escrita. As raparigas nem isso! Havia a convicção de que uma rapariga não precisava de saber ler e escrever e que isso só serviria de descaminho! Além de "correrem o risco" inerente ao crescente conhecimento, permitiria trocar cartas com algum rapaz mais afoito, às escondidas dos seus progenitores.
O seu pai, homem de mente aberta e igualmente à frente do seu tempo, seguiu a sua ideia sem se importar com as opiniões alheias, ensinado a sua filha. Maria foi talvez  a única mulher (das da sua geração) alfabetizada nas Aldeias.
Casou cedo, com apenas 16 anos, com Carmelindo. Aos 17 anos teve a primeira filha e 17 anos depois nascia a filha mais nova. Entre uma e outra nasceram mais 6 crianças. Dos oito filhos que teve, chegaram 6 à idade adulta: dois rapazes e 4 raparigas. Três anos depois do nascimento da filha mais nova, ficou viúva.
Sempre tinha tido uma vida confortável mas a viuvez trouxe uma grande reviravolta!
As três filhas mais novas ficaram consigo na Aldeia. Os outros mais velhos já tinham partido para a cidade grande! A idade adulta chegava cedo naquela altura…
Passaram necessidades, talvez algum “frio na barriga” mas nem por isso perderam a dignidade e o sentido de que a união entre as quatro seria a sua melhor arma contra todas as adversidades. 
Protetora mas não castradora, discretamente atenta, completamente presente!
Connosco, os netos, era igualmente protetora, atenta e presente. Às vezes até parecia que estava distraída, que as nossas marotices passavam despercebidas mas depois, pelo que nos dizia, víamos claramente que quando nós “estávamos a ir, já ela estava de volta”!
Por graça, chegámos a apelidar as nossas brincadeiras de “Os cinco e a avó nervosa” adaptando o título de uma coleção de livros de aventuras muito em voga na época às nossas aventuras de verão. A sua constante preocupação com o nosso bem estar inspirou o titulo das nossas aventuras na Aldeia.
A minha avó era muito magra e tinha um aspeto frágil! No entanto, era uma fortaleza!
Um exemplo de que a sabedoria não precisa de “show off”! Precisa de apenas de estar lá, no local e momento certos!
Maria do Forno teve uma especial missão não só nas Aldeias mas por vários lugares do Concelho. As suas mãos esguias, hábeis e seguras, trouxeram ao mundo dezenas de bebés. Até nos casos mais complexos que exigiam a presença de um médico, este requisitava a sua presença para o auxiliar, reconhecendo assim a sua competência. Trazer à luz é indubitavelmente uma missão!
Não tenho duvidas de que esta mulher tinha um dom…
Um dom apaziguador, curativo, nascido dela e com ela. Daquelas coisas que não têm explicação! Simplesmente se testemunham, se vivênciam!
Tenho saudades da minha avó!
Das suas conversas vindas do nada, da aparente fragilidade, de como andava à chuva  por me ter dado o único guarda-chuva que tinha (e de nada valeu insistir que se abrigasse ela!), das “bichas de botelha” que fazia sempre que estava em minha casa… Coisas simples mas de tão doce memória!
Sempre que penso sua vida, sinto-me grata por descender de tão valiosa casta!
Quem dera ter recebido dela os genes da determinação!
De uma coisa tenho certeza: O seu mundo era mesmo muito maior do que aquele que conheceu.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O nosso tesouro!

Quando um sorriso se apaga, o mundo perde um tesouro.
Na correria dos dias, em que nos queixamos não haver tempo para nada, perdemos horas de sorrisos por coisas que, bem pensado, não têm importância nenhuma!
Se na correria dos dias conseguirmos parar um pouco para pensar, depressa concluímos que a maior parte das coisas que no momento consideramos uma tragédia, mais tarde se revelam um “nada”!
Talvez faça parte da condição humana ser assim: criar um castelo de problemas onde deveria estar uma palete de cores.
O mais estranho é que, muitas vezes, recusamos olhar de frente os problemas que existem (porque existem e todos os temos). Tapamos os olhos, viramos as costas, arranjamos justificações e culpados. É da falta de chuva ou do excesso dela, do sol que queima ou se ausenta, o vento contrário, o mar revolto...
Estamos sempre insatisfeitos, zangados com a vida!
Às vezes parece que nos afundamos em problemas de lana-caprina por falta de problemas a sério! É que quando estes nos aparecem... ah... a realidade ganha outra dimensão!
A vida é uma dádiva tão grande! Se a temos e se passa tão rápido, porquê perder tempo?
Viver!
Apaixonadamente!
Com tudo a que temos direito!
Com um amor enorme e responsavel pela pessoa humana, amor próprio e amor ao outro!
Cometer excessos? Claro! Excessos que não nos destruam, minimizem, anulem!
Excessos que elevem quem somos!
Viver com um sorriso! Sorrir atrai outro sorriso e outro e outro! Sorrir é contagioso!
Deixemo-nos contagiar! Sejamos portadores do bem que um sorriso comporta.
Na correria dos dias, em que nos queixamos não haver tempo para nada, encontremos tempo para sorrir!
Quando um sorriso se apaga e o mundo perde um tesouro, a correria abranda, o choque faz-nos pensar e relativizamos as nossas “tragédias” diárias!
Um sorriso não faz desaparecer uma agrura da vida, mas torna-a certamente menos áspera, menos castrante!

Aprendamos com a partida a importância da presença!
Viver e saborear o que se tem, quem se tem!
A vida é uma dádiva tão rica mas tão breve!

Aprendamos com quem nos oferece uma cara alegre, uma palavra bem-humorada, um passo de dança ou um momento de quietude!
Viver!
Apaixonadamente!
Com tudo a que temos direito!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Férias grandes

No tempo em que era “estudante profissional” havia um período no ano a que se chamava “férias grandes”!
Eram grandes mesmo! Começavam em meados de Junho e iam até meados de Outubro.
Às tantas tínhamos saudades da azáfama da escola, dos colegas, dos intervalos, das aulas (destas menos…) e ficávamos fartos de estar em casa.
O tempo passou e as férias foram ficando mais curtas.
Na faculdade há exames até Julho, por vezes tem de se voltar a ser examinado em Setembro, o que deixa livre apenas o Agosto (que de devia aproveitar para estudar para Setembro, coisa que ninguém faz).
Quando começamos a trabalhar, o conceito de “férias grandes” ganha todo um novo significado!
Tudo muda!
Trabalhamos todo o ano a pensar em duas ou três semanas de descanso.
A ansiedade aumenta à medida que a data se aproxima.
Fazemos planos, traçamos destinos e depois, sem saber como, o tempo passa tão depressa que quase não damos conta!
É muito bom ter para onde voltar, mas o primeiro dia custa sempre.
Vamos e voltamos e a ideia com que ficamos é que o tempo ficou em stand-by durante a nossa ausência.
Ao fim da primeira semana, já as férias parecem algo ocorrido num passado longínquo.
Na verdade, as “férias grandes” não são assim tão grandes!
Creio que posso dizer sem vos fugir com a verdade, que as minhas “férias grandes” tiveram momentos sem medida, dos que perduram no coração, nos fazem pensar no que realmente importa e nos enchem de sorrisos!
Não podemos mudar a duração dos dias, mas... as minhas foram mesmo umas férias enormes!!!  J

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O resto? Depois ser vê…


Que ténue é a linha da vida…
O bem e o mal
A vida e a morte
Lado a lado, sempre lado a lado!
Quando o bem está mais presente e visível
E tudo é luz e ar pulsando de vida
Quase esqueço o resto!
O resto, o que só acontece aos outros!
Alguém cai
Alguém sofre
Alguém parte
São todos tão distantes!
Como se os meus estivessem protegidos
Porque a escuridão pertence ao resto e o resto só acontece aos outros!
Só que eu pertenço ao grupo dos “outros” de alguém
Cair, sofrer, partir… pode acontecer comigo.
E vem o medo, o querer anular o perigo
A tentação de fechar a porta e trancá-la por dentro para que o mal não entre
Ou para que ninguém queira sair em direção a ele
O medo tolda-me o raciocínio! Torna-me irracional!
De repente tudo é instinto!
Proteger é a palavra de ordem!
A linha da vida é ténue e o resto está mesmo ali… perto, demasiado perto!
Não posso viver sem as referências do passado nem sem os olhos postos no dia seguinte.
O passado existiu e o futuro é onde quero ir
Mas a vida vive-se no presente, no hoje, no já!
A racionalidade que se ausenta e deixa reinar o instinto animal
O instinto moldado pelo raciocínio
A linha ténue, o caminho lado a lado
Resistir a ser tolhida pelo medo, lutar para seguir em frente!
A maior parte das coisas que tememos acabam por nunca chegar a acontecer!
E se acontecem?
Viver em equilíbrio nesta ténue mas desafiante linha!
Viver…  
O resto? Depois ser vê…

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ser "Ginete": Um modo de vida

A vida está constantemente a surpreender-me!
Há sempre coisas novas a acontecer, experiencias para viver, momentos inesquecíveis… basta ter abertura para deixar fluir!

Os dias de hoje são muito caraterizados pelo individualismo, a solidão.
Todos conhecemos alguém que, mesmo rodeado de gente, é uma pessoa só!
Às vezes tenho necessidade estar sozinha, é verdade.
De “estar”! Não de “ser”! Estar “só” é opção, ser “só” é condição involuntária de vida.

A família é sempre o refúgio! O colo, o aconchego. É vital!

Desse aconchego também faz parte a dança!
A minha Ritmus, mulheres maduras, esposas e mães que recusaram a render-se à inércia e ao conforto do sofá! A Mix, Corpus e Sibilas que são as nossas filhas e que nos vêm como parceiras, amigas e mãezocas! A família “Ginetes”.

Com a nossa matriarca Gina no comando, temos conseguido coisas fantásticas!
A mais fantástica de todas é sentir a união das 4 classes como se de uma só se tratasse.
Somos mesmo uma família, com as turras e tudo! Mas essencialmente, uma família que se une em prol de algo maior! Às bailarinas juntam-se os pais, os filhos, os maridos, os avós, os irmãos… sem eles não era possível chegar onde chegamos. O apoio que vem de casa é tão importante como as aulas, os espetáculos e os saraus. Sem esse apoio, muitas de nós não poderíamos ser “Ginetes”

A idade, o peso, a altura, a flexibilidade, etc, são características e não limitações. Cada uma dá o tem de melhor e faz de cada dificuldade uma oportunidade para ir mais além!

Ser Ginete tem-me permitido vivenciar o que nunca pensei possível!
Se me dissessem que iria ser atleta federada, dançar numa sala de espetáculos, ir à televisão, cantar com uma orquestra, etc, eu diria que estavam a falar de outra pessoa. Mas não! Sou mesmo eu! E por certo todas terão momentos assim, inacreditáveis.

Alegria, cor, movimento, expressão! É possível pessoas “normais” fazerem coisas extraordinárias!
Digo sem modéstia que esta família tem nos outros um maior impacto do que nós podemos imaginar.

Os dias de hoje são muito caraterizados pelo individualismo e aí marcamos a diferença. Somos um! Unidade que respeita o individuo mas que consegue respeitar também o coletivo e vivencia-lo de um forma especial!

Ser Ginete: Um modo de vida

quinta-feira, 15 de maio de 2014

“Deixo-vos a paz”

Perante os nossos corações atribulados
Ensinas a viver, para que não tenha medo
Vidas escuras por todos os lados
A Tua palavra é luz e isso não é segredo

“Deixo-vos a paz, a minha paz que vos dou
não vo-la dou como a dá o mundo
Não se turbe o nosso coração
Nem sinta um temor profundo


“Deixo-vos a paz, a minha paz que vos dou
não vo-la dou como a dá o mundo
Façamos brilhar a Tua luz
Uma luz de amor! De amor fecundo!

A cada passo insensato que dou
Refazes a minha vida, vens-me resgatar
Dás-me Jesus que me salvou
Dás-me a mão neste meu caminhar

Que brilhem como o sol nascente
Aqueles que amam o Senhor.
Que Te sinta sempre em mim presente
Que viva e reparta o Teu amor

sexta-feira, 7 de março de 2014

Olhar para dentro.


Olhar para dentro...
Quantas vezes me atrevo?
Sim!
Quantas vezes me atrevo a olhar para dentro?
Olhar-me olhos nos olhos, descobrir em que penso e no que verdadeiramente sinto, sem medo do que vou encontrar.
Tendo a manipular o pensamento e o sentimento para pensar e sentir o que devo e não o que quero.
O que me forço a pensar e sentir vai condicionar o que digo e faço...
Não! não estou a falsear o meu "eu".
Estou só a ser quem devo. Se quero ser essa pessoa? Quero! Essa pessoa sou mesmo eu de verdade, não estou a fingir!
Agora... eu também estou na gargalhada mais alta, no corar com um piropo ouvido ou dito, no chorar de paixão ou de raiva, no canto, no movimento, no grito ou nos silêncios, no descontrolo...
Quando realmente penso e sinto o que penso e sinto, aí também estou eu.
Qual dos dois é mais genuíno? O "eu" racional ou o "eu" mais emotivo?
Só tenho uma resposta: ambos!
Estamos na Quaresma: tempo de "olhar para dentro", refletir, silenciar ruídos!
Só silenciando cá dentro é possível ouvir os sons que vêm de fora... é tão enriquecedor misturar o que temos com o que apreendemos!
Shhh! Silencio! Escutar! Escutar-se! Será que vou conseguir?
Na Quaresma também é tradição não comer carne à Sexta-Feira. (Sabem porquê? Se não, tentem saber. É interessante! Não, não vou contar! Trabalho de pesquisa, meus amigos!)
Uma boa forma de olhar para dentro pode passar por aí, pelo que comemos. Em vez de torcer o nariz ao peixe porque o que estava a apetecer era um bife com batatas fritas, dê-mos graças a Deus por termos opção de escolha, por termos alimento!
Olhar para dentro: podemos até ter receio do que vamos encontrar mas vale a pena!
Hoje, isto que escrevo faz todo o sentido na minha cabeça.
Amanhã?
Talvez nem saiba porque o que escrevi.
Mas não me importo!
Olhei para dentro!